O mundo de Bootstrap

Die poor, parte 2

O artigo escrito por Clive Thompson para a edição dezembro 2020/janeiro 2021 da Revista Wired merece ao menos dois comentários: primeiro, a recomendação do livro Working in Public de Nadia Eghbal, que trabalha neste iFood de e-mails chamado Substack. O tema do livro é interessantíssimo, bem como as demais pesquisas da autora. Não comprei o e-book baratinho (R$ 24,99) porque o exemplar físico merece um lugar na estante do Bibliófilo Aprendiz.

O segundo comentário inspirou o título deste post: o artigo na Wired citou estimativas (sem fontes) de que Bootstrap seria utilizado por 1/5 dos sites do planeta. Eu tinha palpites de que jQuery ainda seria o projeto de código aberto mais utilizado na Web, mas nunca tinha pensado em proporções.

Pesquisando por aí, descobri números interessantes:

  • É o sexto repositório em número de forks no GitHub (~71k, nov/2020). Este número representa pouco menos de 1/3 de forks do repositório que está em primeiro lugar. É bastante.

  • Foi detectado em mais de 21 milhões de sites (1,83%) por BuiltWith. Esta base tem mais de 1,2 bilhão de detecções e Javascript é o cacareco mais presente (12%).

Em avaliações das tecnologias utilizadas nos sites que integram o grupo vip (top 10 milhões) de rankings como Alexa, Bootstrap seria utilizado por 21,4% deles e teria 26,8% de participação de mercado. O mesmo site de tendências parece confirmar meu palpite sobre o sucesso persistente de jQuery (77% dos sites monitorados).

Tenho outros palpites (igualmente sem fontes) que explicariam o sucesso de Bootstrap, seja entre programadores, designers ou usuários. Entre os primeiros, desapareceu o problema do design de interfaces “com cara de programador”. Basta saber ler a documentação e seguir os exemplos para que a receita funcione bem.

Não há inovação nessa abordagem, uma vez que a indústria de software descobriu relativamente cedo os benefícios de oferecer orientações para a construção de interações humano-computador. Há diversos guias vigentes — Apple, Windows, Android e até para o gov.br. A possibilidade de obter interfaces honestas é relevante para sites públicos e também para intranets e sistemas de gestão, desenvolvidos por equipes enxutas de programadores sem designers.

Quanto a designers, posso falar sobre estudantes. Após a apresentação das bases de HTML e CSS para as turmas, observo sensações de liberdade e alívio quando descobrem Bootstrap. As expressões de felicidade aparecem principalmente na definição de grids (bônus para responsivos), construção de formulários e alinhamentos mais complexos de elementos. Cores, ícones e demais estilizações são secundárias e desaparecem gradualmente na medida em que aprendem a sobrescrever os padrões.

Também observo Bootstrap como alternativa para perfis metade designer, metade programador, que têm preguiça de usar ferramentas de prototipagem (Figma, XD) e preferem partir para protótipos funcionais em código logo de saída.

No caso dos usuários, não creio que ter “cara de Bootstrap” represente problemas. Sendo pragmático, a familiaridade de Bootstrap entre usuários médios deve ser muito superior aos 26% de participação de mercado. Afinal, de serviços de governo eletrônico a empresas de diversos portes, os botões coloridos e rechonchudos estarão lá. O restante do repertório das interações do usuário médio pode incluir timelines (onipresentes de bancos a redes sociais), portais de notícias caóticos e algumas exceções minimalistas e brutalistas. Pode-se usar Bootstrap para construir todos.

Após tanto sucesso, é incrível pensar que a manutenção segue voluntária.

Este texto encerra duas semanas de Substack! Gostei da plataforma e do formato, mas e você? Mande opiniões, críticas e cupons de desconto para hugo.santanna@ufes.br.